1945-05-08 PDF Imprimir e-mail
Discurso de Oliveira Salazar na Assembleia Nacional reunida em sessão extraordinária em 8 de Maio de 1945

No Fim da Guerra

SENHOR PRESIDENTE: SENHORES DEPUTADOS: Conhecedor das intenções da Câmara, o Governo desejou estar presente às manifestações da representação nacional pelo fim das hostilidades na Europa. Não é este o momento para a revisão, que me proponho fazer em breves dias perante a Câmara, dos problemas directa ou indirecta¬mente ligados aos acontecimentos actuais. O meu intento hoje é outro e as minhas palavras serão breves. Caiu finalmente o pano sobre a tragédia que a Europa, representou e viveu na sua carne e no, seu espírito durante os últimos seis anos. Nenhuma dor, nenhuma angústia, nenhum mal de quanto a pobre humanidade em séculos de desvario ou de expiação inventou e sofreu lhe foram poupados, a esta martir, mãe de civilizações: nem conflitos trágicos de conceitos fundamentais da vida dos homens e das sociedades, nem divisões intestinas e lutas fratricidas, nem as maiores aberrações da inteligência e do sentimento, nem destruições cicló¬picas de vidas e haveres, de economias e culturas, de cidades e de nações. Tão extensa e profunda foi a tragédia que nem mesmo todos os ven¬cedores e lembro piedosamente o Presidente Roosevelt - puderam sorrir ao claro sol da sua vitória. A terra está ensopada de sangue e de lágrimas; sofreu se e sofre se de mais para que nos entreguemos a ruidosas manifestações de alegria. Contudo, e embora com os olhos embaciados de lágrimas, um íntimo contentamento de alma é justo e devido. Apontarei, resumidamente, os três motivos seguintes.

Em primeiro lugar cessar a luta e findarem os horrores que a guerra traz consigo é já de si ines¬timável bem. A libertação de países tão duramente experimentados e tão dignos na sua provação, a recuperação da sua independência e liberdade de vida, poder se trabalhar para o bem estar dos povos e não para o seu aniquilamento, dará por toda a parte a doce sensação de um quebrar de algemas, acordar de pesadelos e renascer para a vida e a feli¬cidade possível. E, embora o futuro se ensombre de grandes preocupações e a obra de reconstrução material e moral se antolhe mais difícil que os trabalhos da mesma guerra, há de ver se que é tarefa a realizar em paz e na esperança, só por si bastantes para desoprimir o espírito, aligeirar os corações, tornar mais leve o esforço comum. Bendigamos a Paz!  

Depois a Providência, dispôs em seus altos desígnios que pudessemos atravessar o conflito sem sermos directa e activamente envolvidos nele e sem nele sacrificarmos mais que dinheiro, esforços, cuidados, algumas privações, o que, sendo muito em si, tudo se deve ter por pouco, em face do que outros houveram de sofrer. Atravessámos incólumes a guerra e, podemos dizê lo, sem sacri¬ficar nem a dignidade da Nação nem os seus inte¬resses e amizades. Sempre que foi necessário marcar posições pela palavra ou pelo acto em favor de amigos ou aliados, e fosse qual fosse a sua situação de momento, ou o fizemos espon¬taneamente ou acorremos de boamente ao seu apelo. Decerto houve que ter plena consciência das consequências possíveis, mas não exagerámos os riscos para nos desviarmos do dever: aceitámos serenamente e em todas as circunstâncias a parte de sacrifício que pudesse caber nos. E não temos de medir ou recordar os serviços presta¬dos, porque não são nem depreciados nem esquecidos.  

Não lembro neste momento, dificuldades ven¬cidas; registo que pôde manter se a posição sem subserviência para com os poderosos e sem desinteresse, antes com fraternal carinho pelos fracos e pelos oprimidos em demanda de auxílio ou refúgio. E, tendo ficado à margem das gran¬des paixões que dividiram os povos, pudemos, com o coração isento, debruçar nos piedosamente sobre todos os sofrimentos, admirar todos os heroísmos, ser compreensivos para todos os erros, sem deixar de ser severos para com todos os crimes. 

Mais felizes do que aqueles que para per¬doar muito terão que esquecer, a nossa missão está simplificada no mundo que se pretende edi¬ficar sobre o respeito do homem, a amigável colaboração das nações, o bem comum da huma¬nidade. Bendigamos a Paz!  

O terceiro motivo do nosso contentamento está em que a Inglaterra se encontra entre e no pri¬meiro plano das nações vitoriosas. Muitos se ufanarão de o ter lido no livro do futuro com clareza meridiana; eu confesso humildemente que a espe¬rança só se me converteu em certeza ao contem¬plar um esforço de guerra que, embora dentro das extraordinárias possibilidades do povo britânico, se duvidará de alguma vez ter sido atingido na história da humanidade. Ninguém entre nós deixou de considerar o inte¬resse nacional solidário da posição da Inglaterra (e até da Comunidade Britânica) tal como resul¬tasse da solução do conflito. Todos podiam notar que a uma visão porventura demasiado continen¬tal da Europa estava contraposta a concepção his¬toricamente mais exacta da sua universalidade, e era a todos evidente que a vitória inglesa e dos Estados Unidos da América (em que o Brasil cola¬borava activamente) teria como resultado arrastar para o Atlântico o centro de gravidade da polí¬tica internacional, no que importava ao Ocidente. E numa e noutra coisa nós somos interessados. Ora eis que, embora sangrando de inúmeras feri¬das, a Inglaterra se ergue, de entre grandes ruinas, não só vitoriosa mas invencível; e, tendo consoli¬dado os laços das diversas partes do Império, se pode apresentar no Mundo, e entre os maiores, como verdadeira educadora de povos, mãe e condutora de nações.  

Bendigamos a Vitória!

E calo me. A verdade é que em hora tão alta e quase sagrada não descubro, não sinto, em mim senão um vivo impulso de graças à Providência pela sua misericórdia e de, preces por que a sua luz ilumine os homens responsáveis, pelos destinos do Mundo.

“No Fim da Guerra” in Discursos e Notas Políticas, IV. 1943-1950, Coimbra, Coimbra Editora, 1951, pp. 93-98. 

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