1946-04-03 PDF Imprimir e-mail
Nota do Presidente do Conselho "Produzir e Poupar. Mensagem aos Portugueses".

O Embaixador de Inglaterra transmitiu ao Go¬verno um apelo do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros no sentido de nos interessar numa campanha mundial destinada a convencer da extrema necessidade de elevar ao máximo a produção de alimentos e de reduzir no possível o seu consumo.

Antecipando se um pouco, já o Sr. Embaixador fizera à imprensa, em 3 de Março, minuciosa exposição sobre o assunto, a que os jornais se referiram largamente em 5 daquele mês. Por sua parte o Sr. Bevin no seu apelo perfilhava e sublinhava afinal a resolução adoptada pela última assembleia geral das Nações Unidas. Neste momento, também a convite do Governo Britânico, encontram se em Londres os Ministros responsáveis pelos problemas da alimentação na Europa a fim de trocarem todas as informações úteis e tomarem as suas deliberações. 

A simultaneidade ou sucessão a curto prazo de votos e de resoluções de tão altas entidades nasce de se verificar a insuficiência de alimentos disponíveis para os habitantes de vastas áreas do globo, especialmente da Europa e da Ásia ou seja que nos próximos dezoito meses, correspondentes a dois ciclos completos de cultura, será precário o abastecimento das populações e no seio de muitas haverá mesmo a fome, com todos os seus horrores. Ainda que o ano agrícola venha a ser melhor que os precendentes, a situação não sofrerá mudança radical, visto que a regularidade de abastecimento no Mundo não exige só quantidades suficientes para o consumo, mas a existência de reservas que permitam uma boa distribuição. Ora as poucas reservas existentes estarão consumidas ao começar o ano agrícola de 1946 1947 e a falta de adubos, a restrição de áreas cultivadas, a anarquia, escassez, e baixo rendimento do trabalho provocados pela transferência em massa de populações e a sua deficiente alimentação não permitem esperar para as próximas colheitas a fartura dos anos normais. 

Vê se que o problema tem aspectos políticos e económicos da maior importância e que a sua solução dependerá afinal mais de aqueles poderem, ser encarados a sério do que dos mais sinceros e fer¬vorosos apelos. Mas a situação é tal que nada se pode preterir ou desprezar e em cada país as «gotas de boa vontade» ajudarão, directa ou indi¬rectamente, o caudal que abastece o Mundo. 

 Desfeita a ilusãp de que haviam de terminar com a guerra as privações, teremos de retomar a orientação no princípio dela impressa à nossa economia, pois se mantém e de facto até se agravou¬ a necessidade de Produzir e poupar. Nas actuais circunstâncias, e embora isso deva ser tomado em conta pelos dirigentes, não é o cálculo do custo ,ou do preço do produto, para quem haja de pro¬duzir, nem as possibilidades de gastar, para quem consome, que têm de ser tidos em maior conta. O que importa é produzir ao máximo géneros ali¬mentícios e não consumir deles, cada qual, senão o estritamente necessário. Nós temos feito um esforço, por vezes heróico, para não deixar incuIto um palmo de terra e para aumentar a produção total. Pretende se que não se afrouxe nesta luta e se force a terra ao máximo das suas possibilidades. Avança se que pode não ser, e geralmente não é, uma operação lucrativa; mas é sem dúvida colaborar meritoriamente numa, obra de solidariedade. Importa ainda economizar os géneros, sobretudo não os desviando da alimentação humana. Aqueles que por motivos vários têm já a sua alimentação reduzida e pobre não poderão talvez fazer muito neste sentido, porque acima de tudo lhes importa conservar a sua força ou capacidade de trabalho. Mas há entre nós vastas classes da população que podem a si próprias impor se como dever nada desperdiçar, nada con¬sumir além do, estritamente necessário ao seu sus¬tento. Leio no apelo do Secretário de Estado bri¬tânico para os Negócios Estrangeiros esta frase: «fazei sentir que o desperdício é um pecado» . Eu não quero fugir a crer que também à nossa consciência cristã se pode falar a mesma linguagem. Quando milhões de pessoas estão em perigo de morrer de fome,. sem culpa, é certamente grave não ter presente a cada momento como o nosso supérfluo pode ser o necessario para outros e os nossos desperdícios. a vida de muitos homens. Neste aspecto o problema transcende mesmo a economia e a política; situa se hoje no plano da humanidade.  

O Governo entendeu que me competia a mim pessoalmente sublinhar o apelo alheio e dirigir o nosso próprio aos portugueses de boa vontade. Confio. em que a imprensa o fará chegar a toda a parte, reforçando o e ilustrando o com as suas razões, e espero que todos os que dispõem de uma fracção de autoridade, mesmo só moral, se façam os arautos desta nova cruazada. Demais, não se nos pede que cedamos gratuitamente os nossos bens, mas que tentemos bastar nos a nós proprios, para não pesarmos por nossa parte sobre os mercados abastecedores, e, se pudermos, ajude¬mos a arrancar os outros homens à miséria e à fome, com um pouco mais do nosso trabalho e cuídàdos e com a nossa temperança. Se o senti¬mento de solidariedade humana vive no nosso espí¬rito, demos agora e mais uma vez a prova de que é capaz de inspirar os nossos actos de cada dia, como tem inspirado a política da Nação.

António de Oliveira Salazar, "Produzir e Poupar. Mensagem aos portugueses", publicada nos jornais de 3 de Abril de 1946 in Discursos e Notas Políticas, IV. 1943-1950, Coimbra, Coimbra Editora, 1951, p. 219-221.

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